Resistência têxtil
no bordado palestino Tatreez
“Bordado palestino, ou tatreez , é uma forma de arte centenária preservada por meio da história oral entre mãe e filha”. — Wafa Ghnaim
Durante a pesquisa e montagem dos cursos eu sempre esbarro em alguma coisa nova que me causa muita curiosidade e encanto. Foi o caso dos bordados palestinos. Recentemente descobri a pesquisa maravilhosa de Wafa Ghnaim (ela tem um projeto chamado Tatreez and Tea) a partir de um artigo que ela publicou em 2024 chamado “Tatreez in Time: the Memory, Meaning, and Makers of Palestinian Embroidery”.
Em nossa nova edição do curso “Recosturando histórias: mulheres e história da arte têxtil” (que está com inscrições abertas) trarei uma parte dedicada à questão da resistência têxtil e, portanto, citarei a técnica como uma das referências para nossos estudos.
No artigo, a autora delineia uma história dos bordados e destaca o processo de preservação não apenas das peças, mas principalmente da técnica diante de todo o processo de destruição da cultura palestina.
Há uma certa dificuldade de encontrar documentos históricos, já que “em vários relatos históricos e contemporâneos, os palestinos são frequentemente tornados sem nome e sem lugar”, segundo ela.
Sendo refugiadas, as mulheres tiveram que se reinventar. A autora fala inclusive sobre a dificuldade de acesso aos materiais e sobre como a agricultura influenciou no processo de elaboração dos bordados. Nesse processo, “as técnicas de bordado e costura geograficamente específicas não eram mais praticadas, pois as mulheres começaram a compartilhar seus padrões umas com as outras em meio às populações diversas e deslocadas que agora viviam em campos de refugiados”. Além disso, nos últimos meses, teares históricos foram destruídos na Faixa de Gaza.
A mãe de Wafa também foi uma ativista e artista têxtil. E como elas existem tantas outras mulheres e projetos que visam preservar a história do Tatreez.
Nesse texto trago alguns trechos que destaquei do artigo “Tatreez in Time” para apontar a importância da técnica de bordado na resistência e sobrevivência da cultura palestina:
“Por meio da prática cultural do bordado (...) , mulheres e meninas palestinas decoravam seu thobe (ou vestido) com símbolos de história, memória e lugar (...) O thobe (...) contém explicitamente os detalhes biográficos de uma mulher por meio das técnicas de bordado usadas, dos fios escolhidos e do equilíbrio harmonioso de cores, bem como da interpretação de cada fabricante de padrões tradicionais que contam sua história em pontos. (…) Durante os séculos 19 e 20, os padrões do tatreez (...) retratavam flores, árvores, plantas e animais específicos que faziam parte da paisagem natural da Palestina. (…) Esses padrões são numerosos, e um único motivo, como a árvore da vida, ou saru , poderia ter variações aparentemente infinitas de criadora para criadora. (…) O estudo desses vestidos, no entanto, excede a tecnicidade e o artesanato, indo além da simples compreensão de seus materiais e construção. A materialidade de um vestido (...) é um olhar íntimo para a vida da usuária. (…) O impacto profundo e duradouro da al-Nakba transformou significativamente as tradições de bordado e costura para mulheres que se tornaram refugiadas (...) Embora o thobe já tenha representado a identidade regional da fabricante (...), o vestido agora evoluiu como um símbolo de identidade nacional, sobrevivência cultural e evidência da vida palestina persistindo contra todas as probabilidades. (…) A preservação das tradições palestinas de bordado e costura triunfou diante da violência, guerra e ocupação porque é uma forma de arte viva, codificada com histórias da terra e de seu povo, mesmo quando eles foram separados.”
— Wafa Ghnaim
Leia o artigo completo aqui.
Para saber mais sobre o assunto não deixe de conhecer e se inscrever em nosso curso sobre as mulheres e a história da arte têxtil! São os últimos dias para garantir sua participação.
Crédito da imagem: Tatreez & Tea.


